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Psicopedagogia não é “Psicologia disfarçada”: por que a aprendizagem exige uma abordagem interdisciplinar?

há 2 horas
4 min de leitura

A discussão sobre a regulamentação da Psicopedagogia voltou ao centro do debate brasileiro.

E há uma pergunta que precisa ser feita com seriedade:

por que uma profissão que atua especificamente sobre os processos de aprendizagem deveria ser considerada apenas uma especialidade de outra profissão?

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) já declarou publicamente sua oposição à regulamentação da Psicopedagogia como profissão independente e defendeu que a Psicopedagogia seja tratada como especialidade da Psicologia. Em audiência pública no Senado, representantes do CFP e da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional apresentaram esse posicionamento.

Mas existe um problema nessa lógica: reconhecer a importância da Psicologia não significa que a Psicologia seja a única profissão capaz de contribuir para a aprendizagem.


Aprendizagem não é um fenômeno de uma única profissão

Dificuldades de aprendizagem são fenômenos complexos.

Uma criança pode apresentar dificuldades acadêmicas associadas a questões de linguagem, atenção, desenvolvimento, aspectos emocionais, condições neurológicas, déficits instrucionais ou outras condições que precisam ser investigadas.

Por isso, a literatura clínica internacional há décadas recomenda uma abordagem multidisciplinar.

A American Academy of Pediatrics, por exemplo, descreve a avaliação e o manejo das dificuldades de aprendizagem como um trabalho que pode envolver educadores, especialistas em intervenção educacional, fonoaudiólogos, terapeutas, psicólogos e médicos.

Ou seja:

a ciência não aponta para “uma profissão que resolve tudo”.

Aponta para avaliação adequada, identificação das diferentes necessidades e atuação coordenada de profissionais com competências distintas.


Psicólogo é importante. Mas não é o único profissional.

Esse ponto precisa ficar muito claro.

Não existe nenhuma necessidade de diminuir a Psicologia para defender a Psicopedagogia.

Pelo contrário.

O psicólogo tem uma função fundamental.

Mas o mesmo raciocínio vale para o nutricionista, o médico, o fonoaudiólogo, o terapeuta ocupacional, o educador e o psicopedagogo.

Cada profissional entra com conhecimentos, métodos e competências específicos.

Imagine uma criança que apresenta dificuldades de aprendizagem associadas a ansiedade, seletividade alimentar e alterações metabólicas.

Você realmente acredita que uma única profissão deveria assumir todas essas dimensões?

É justamente o contrário.

A criança precisa de uma rede de cuidado.


A analogia da febre

Vou usar uma analogia simples.

Se uma criança está com uma infecção bacteriana e apresenta febre, administrar um antitérmico pode reduzir a febre.

Mas isso não significa que o antitérmico esteja tratando a causa da infecção.

Sintoma e causa não são necessariamente a mesma coisa.

Na aprendizagem acontece algo semelhante.

Uma dificuldade escolar pode ser apenas a manifestação observável de um problema que exige investigação em diferentes dimensões.

Por isso, afirmar que determinado profissional pode contribuir para a aprendizagem não significa que ele possa substituir todos os outros profissionais envolvidos naquele caso.

E esse é justamente o ponto:

Não precisamos de uma profissão tentando ser o antibiótico de todas as situações. Precisamos de profissionais qualificados sabendo exatamente qual é o seu papel.

O que o PL 1.675/2023 realmente propõe?

Aqui também precisamos sair das opiniões e olhar para o texto.

O autógrafo do PL estabelece que poderão exercer a atividade de Psicopedagogia, entre outros, profissionais com graduação em Psicopedagogia e profissionais de Psicologia, Pedagogia, licenciaturas ou Fonoaudiologia que concluam especialização em Psicopedagogia de pelo menos 600 horas, dentro do prazo previsto. O texto também determina que os cursos contemplados tenham estágio prático supervisionado.

Mais importante: o texto define atividades próprias da Psicopedagogia, incluindo avaliação e intervenção exclusivamente psicopedagógicas, utilização de métodos e instrumentos psicopedagógicos relacionados à aprendizagem e consultoria e assessoria psicopedagógicas. E faz isso expressamente sem prejuízo das atribuições dos profissionais da saúde e da educação habilitados.

Isso é extremamente relevante.

Porque o texto não diz:

“Psicopedagogia substitui Psicologia.”

Ele estabelece uma atividade profissional própria ao lado das demais profissões.

E é aqui que a discussão fica interessante

Se a preocupação é a segurança da população, então vamos discutir:

formação.

competência.

supervisão.

evidência científica.

limites profissionais.

Isso, sim, é uma discussão séria.

Aliás, a própria proposta de regulamentação estabelece estágio prático supervisionado.

Portanto, talvez a pergunta mais importante não seja:

“Por que existe uma nova profissão?”

Mas:

“Como garantir que todos os profissionais que atendem pessoas com dificuldades de aprendizagem tenham formação adequada, competência comprovada e saibam quando encaminhar para outro profissional?”

Essa é uma discussão que interessa, acima de tudo, à criança e à família.

Cada profissão no seu quadrado

Eu sou nutricionista, pedagoga e atuo há mais de 11 anos na Psicopedagogia.

E justamente por transitar por áreas diferentes, uma coisa ficou muito clara para mim:

nenhuma profissão precisa abraçar o mundo inteiro.

O nutricionista não precisa ser psicólogo.

O psicólogo não precisa ser nutricionista.

O médico não precisa ser psicopedagogo.

E o psicopedagogo não precisa ser psicólogo.

Precisamos de profissionais competentes trabalhando juntos.

Porque, no final, a pergunta não deveria ser:

“Qual profissão vai ficar com esse paciente?”

A pergunta deveria ser:

“Do que essa criança precisa — e qual profissional tem competência para oferecer cada parte desse cuidado?”

E talvez seja justamente essa maturidade profissional que esteja faltando nesse debate.

Regulamentar a Psicopedagogia não significa apagar a Psicologia.

Significa reconhecer que a aprendizagem é complexa demais para caber dentro de uma única profissão.

Observação importante para você: eu não usaria no artigo a afirmação de que “o psicólogo é a dipirona” como uma afirmação científica. Use-a como analogia retórica, porque cientificamente não é correto dizer que psicólogo “só trata sintoma” ou que psicopedagogo “trata a causa”. A força do seu argumento está justamente em algo muito mais difícil de rebater: a evidência favorece avaliação e manejo interdisciplinar das dificuldades de aprendizagem. 

E tem uma atualização importante para o seu vídeo: em 10 de setembro de 2026, o PL 1.675/2023 está aguardando sanção presidencial, não simplesmente “tramitando no Senado”. O prazo informado pelo Senado para sanção ou veto vai de 3 a 24 de setembro de 2026.

 
 
 

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